quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Como dizia meu avô




Antes de começar o texto, trago um trecho da maravilhosa crônica de Fernando Sabino, chamada “As Chaves da Vaguidão”:


“Encontro com João Leite num bar em São Paulo. Sou apresentado à sua roda habitual de uísque ao entardecer. São seis ou oito, cada um atrás de seu copo. São alegres, parecem bons sujeitos — mas, como de hábito, não chego a guardar o nome, nem sequer a fisionomia de cada um. Quando, mais tarde, me ergo para sair, João Leite me acompanha até a porta, e só então me dou conta de que não me despedi de ninguém.

— Espere um instante.

Volto até a mesa e me despeço, apertando a mão de um por um:

— Até logo. Muito prazer, hein? Até logo. Muito prazer.

João Leite me aguarda junto à porta:

— Que é que você foi fazer?

— Me despedir de seus amigos.

Ele solta uma gargalhada:

— Aqueles não são os meus amigos. Meus amigos estão na mesa ao lado. Aqueles eu nem conheço”.


Situação semelhante já havia acontecido comigo, numa festa de Halloween de 2014, com meus colegas professores. Fui com minha irmã, ambas maquiadas e vestidas de bruxas, levando uma imensa torta de frango, que havia comprada para compartilhar com o pessoal. A numeração era irregular, uma rua de terra com iluminação fraca, próxima à Represa Guarapiranga, quando avistamos algumas pessoas trajadas com fantasias de terror. Elas nos convidaram a entrar e reclamaram do nosso atraso. Entramos, sentamos, batemos papo com aquelas pessoas simpáticas, até que me lembrei de perguntar pela Patrícia, a dona da casa:

— A Patrícia? Ah, deve ser a que mora aí na casa da frente! Vocês são convidadas dela?

Esclareci o engano, peguei a torta de volta e fomos para a festa correta. Tenho a impressão de que eu teria feito bons amigos se permanecesse na festa “errada”. 3 anos depois, fui convidada a uma comemoração nesse mesmo endereço, do engano. Eu havia começado a praticar Jiu-Jitsu e um colega de treino comemorou o aniversário lá. Jung teria um nome para isso? Sincronicidade?

Ontem, dia 1 de novembro de 2025, fui dar um abraço na minha prima-irmã, que me convidou para um bolinho em sua casa. Ao chegar no prédio à noite, sem óculos, passei em frente ao salão de festas, de onde pareciam vir vozes familiares. De repente, a Dani mudou de ideia e para comportar melhor os adultos e as crianças e solicitou o salão. Demorei-me em frente à porta de vidro, parcialmente aberta, tive a impressão de ter visto a aniversariante com uma taça de espumante ao fundo. As mulheres sentadas no meio do salão gritaram para mim: “É aqui mesmo! Vem logo!”. É o tipo de coisa que meus parentes me diriam. Hesitei, lembrando do que ocorrera 11 anos antes, mas a convicção dessas pessoas acabou por me convencer a entrar salão. Aí sim, mais perto, pude comprovar que não conhecia ninguém. Informei às pessoas que não era lá a minha festa, desejei que tivessem uma ótima noite e saí.

Ao entrar no apartamento da Dani, contei às minhas primas e tias o que havia ocorrido. Afinal, gosto de histórias assim e acredito que os demais também. Uma das minhas primas admirou minha coragem de contar e perguntou como eu estava lidando com tamanho constrangimento. E foi aí que percebi que não me senti envergonhada ou constrangida. Talvez, se ocorresse na adolescência, isso me tirasse o sono por meses. Eu tinha uma autocobrança tóxica. Precisava ser perfeita, sempre. Mas hoje, prestes a completar 45 anos, sendo os 10 últimos acompanhada de terapia, posso afirmar que realmente não ligo. Afinal, as pessoas do salão também se enganaram. Mas não só isso… É que cada vez mais tenho pensado no que dizia meu avô José Rosiska, citado pelo meu pai:

— A única vergonha é pedir dinheiro emprestado pra beber, fumar, jogar e ir pra zona.

A filosofia daquele polaco de olhos azuis, nascido em 1918, é de uma beleza tocante. Meu avô passou muita fome, viu os filhos passando fome, tinha uma saúde ruim. Mas tinha uma mentalidade muito à frente do seu tempo. Nunca bateu nos filhos, 4 meninos. Em seu pequeno sítio de plantio de café, construiu um barracão e pintou uma das paredes de verde escuro para servir como lousa. Usava o local como sala de aula, onde ensinava os peões a ler e escrever. Toda noite lia livros em voz alta para aquelas pessoas poderem ter repertório. Estudou até a 3ª série, mas fazia cálculos avançados, que muito estudante de engenharia não seria capaz de realizar hoje. Era católico, rezador, aquele que era chamado para fazer novena nas casas. Meu pai e meu tio mais velho foram para o seminário para estudar. Nunca exigiu que eles chegassem a ser padres. E, por fim, tinha essa máxima, que só devemos ter vergonha de não sustentar nossos vícios. Ou seja, ele compreendia profundamente as fraquezas humanas e não julgava ninguém por seus vícios, desde que “sustentáveis”. Talvez isso seja o cristianismo verdadeiro. Talvez seja a ética, totalmente laica. Não sei… Só lamento que ele tenha falecido antes do meu nascimento. Acredito que seríamos bons interlocutores.

Mas falei aqui sobre Fernando Sabino porque, na verdade, passo por um momento de ansiedade e preciso me apegar ao que dizia seu pai, o Sr. Domingos:

— No fim tudo dá certo. Se não deu certo, é porque ainda não chegou no fim.

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